domingo, 3 de julho de 2011

Traição


Meu sono era leve. Há mais de uma hora, eu rolava na cama de um lado para o outro e nada... O dia havia sido bastante cansativo, mas, apesar disso, não conseguia me desprender daqui e entrar naquele estágio de sono profundo. Comecei a ficar apreensiva, afinal, já devia passar da uma da manhã e eu acordaria dali a seis horas.
Decidi não abrir os olhos, pois essa ação fatalmente me levaria até o relógio e eu não merecia tamanha angústia. “Dorme! Dorme, vai!”. Detesto insônia! É horrível! “Vai, você vai conseguir! Basta fechar os olhos e relaxar... Ai, que droga! Nada... Bom, que tal pensar em coisas boas?” Parecia uma ótima idéia... Comecei a me lembrar de todas as viagens que já fiz com Mateus, todos os lugares que passamos juntos, as praias, as cachoeiras, os museus, os castelos, o dia em que pegamos o carro e partimos pela Toscana, a noite em que assistimos um coral de crianças na Saint Chapelle, o dia em que chegamos a Londres e desbravamos suas ruas e seus jardins, a noite em que fomos a Filarmônica de Berlim e choramos de mãos dadas, tomados de uma avassaladora emoção, o dia em que andamos pela praça de Praga e um homem tocava um Xilofone que soltava fogo... a música era engraçada, alta, muito alta, adentrava meus ouvidos agressivamente, tão agressivamente que chegava a doer... “Ai, para de tocar! Para! Para!”. Abri os olhos. Meu telefone aceso acabara de me tirar daquele transe. Eram duas e meia da manhã e o nome “Roberta” reluzia na tela do meu celular:
-       Beta? Que houve?
-        Acabou, Flora. Acabou...
-       Calma, amiga. O que aconteceu?
-       O Marcelo... ele...
Putz, já podia imaginar... Foi por isso que me seguraram por aqui esta noite e me impediram de subir. A missão estava apenas por começar...
-       ...ele me traiu! Eu descobri tudo! Acabou!
O que dizer numa hora dessas além de “calma, calma, calma...”? A essa altura, Mateus, acordado, começava a me indagar: “o que houve? O que houve? O que houve?”. Com raiva de todos os homens da face da Terra, eu gritei: “Nada!”. E saí do quarto com Beta aos prantos em meus ouvidos:
-       Flora, foi horrível...
-       Mas, como você descobriu?
-       Ele esqueceu a caixa de e-mail aberta e foi tomar banho. Aí, eu resolvi fuxicar e achei várias mensagens de uma tal de Aline lá do trabalho dele, dizendo como as tardes eram maravilhosas com ele, como o sexo era bom, o quanto ela estava ficando apaixonada, mas sabia que não podia, afinal ele é casado... e por aí vai... Amiga, eu tive vontade de vomitar!
-       Calma, Beta...
-       E o pior de tudo é que já faz muito tempo... Desde antes de a gente se casar, acredita? Ele se atirou no chão pedindo perdão, dizendo o quanto vivia sofrendo com isso, mas que ia mudar, que ia acabar tudo com essa Aline, que me amava mais que tudo nesse mundo, que eu era a mulher da vida dele... Patético...
-       Calma, Beta...
-       Doeu, Flor. Está doendo muito... Parece que eu não vou agüentar... É uma dor muito esquisita, porque, às vezes, ela vem misturada de uma compaixão, sabe? Fico querendo matá-lo e, ao mesmo tempo, pegá-lo no colo e dizer: “fica tranqüilo, vai ficar tudo bem...”. É como se no fundo eu quisesse que  tudo fosse um pesadelo... Como se não pudesse ser real isso que está acontecendo... A gente estava tão bem... Tão feliz...
-       Calma, Beta...
-       Eu sempre achei que isso só acontecia com os outros e que o Marcelo era diferente. Eu coloquei ele pra fora! Acabou! Acabou...
-       Você quer que eu vá ficar com você?
-       Não. EU quero ir ficar com você...
A Beta chegou aqui em casa parecendo um zumbi: os olhos inchados de tanto chorar, a voz fraca, o corpo murcho... Arrumei a cama pra ela e fiquei abraçando-a por longos segundos antes de apagar a luz. Fiz carinho na sua cabeça, dei muitos beijos em suas bochechas e fiz questão de dizer o quanto eu a amava e o quanto ela era especial. Eram quatro e meia da manhã e eu só tinha poucas horas para me recuperar.
Embarquei num transe profundo... Em poucos segundos, já me encontrava com Luca:
-       E aí? Como é que ela ficou?
-       Mal, né... Está sofrendo muito, coitada... A gente não pode levá-la até o Danilo?
-       É exatamente por isso que eu estou aqui.
O Danilo é um negro alto, forte e lindo. É uma das pessoas mais iluminadas que eu já vi (e, olha que minha lista não é pequena...). Seu coração é tão puro e sua energia positiva é tão intensa que ele, atualmente, cuida do “Campanário dos Corações”. O nome é brega assim mesmo, mas o lugar é incrível. Não tem árvores nem flores, nem crianças correndo, nem anjinhos tocando harpa. Também não é uma sala branca e vazia. É muito mais do que isso. É mágico! Toda a sua superfície é composta de água. Sim, água! E nós podemos andar livremente sobre ela. Todo o seu entorno é cercado de cachoeiras e o ar que respiramos lá é cheio de fluidos que fazem tudo brilhar. Conseguiram imaginar? Pois bem, o Danilo fica no centro de tudo isso. É ele quem cuida de todos os corações machucados dessa região.
Quantas vezes já chorei em seus braços e ele lavou minha alma e meu peito. Não há sequer uma pessoa (do nosso metro quadrado, claro!), que já não tenha sido cuidada por ele. Era a vez da Beta.
Conversamos com o Danilo, que, extremamente ocupado por tantos corações partidos, abriu uma brecha em sua “agenda” e aceitou começar o tratamento com ela na próxima noite. Nós a buscaríamos e a levaríamos de volta ao lar nos próximos noventa dias. Depois, em noites alternadas por mais três meses e, dependendo do resultado, uma vez por semana por mais seis meses. A manutenção se daria com uma visita mensal no segundo ano de tratamento. Só a partir do terceiro ano, seu coração poderia voltar a ficar mais tranqüilo. A cicatriz ficaria para sempre...
-       É por isso que lá embaixo a gente diz que só o tempo pode curar...
-       Flora, pelo menos, cura. Imagina se não tivéssemos o Danilo...
Preferi não imaginar... O trato estava feito e era hora de voltar pra cama.
Comecei a sonhar aquele sonho que vem um pouco antes de a gente acordar. Aquele sonho que é fruto da nossa imaginação, dos nossos medos, das nossas inseguranças...
Mateus e eu chegávamos a um bar. O local estava repleto de pessoas falando alto, gesticulando, rindo... Tudo era meio marrom, meio esquisito... Sentamos numa mesa. Aos poucos, foram chegando outras mulheres que, sem pudor, sentaram-se conosco. Cumprimentaram meu marido como se já o conhecessem. “Estranho”, pensei. “De aonde Mateus as conhece?”. Elas eram vulgares, trajavam lingeries sujas, velhas e rasgadas, mas não perdiam a pose. Fumavam em suas piteiras e bebiam uísque nacional.
Meu marido começava a ficar sem graça com toda aquela situação. Até que olhei para seus olhos e pude ver tudo: ele as conhecia intimamente, eram todas mulheres do prostíbulo que ele freqüentava. “Não, não era possível... Ele sempre disse que me amava, que não me trairia jamais, que nosso amor era mais forte que qualquer coisa... Não!”.
Saí, desolada, pelas ruas sujas e vazias. Ele, gritando e me implorando perdão, veio atrás. E, atrás dele, todas as outras mulheres também vinham. “Sai!”, eu gritava. “Some da minha vida!”. Ele chorava, chorava, chorava... Dizia que aquilo era diferente, começava com aquele discurso machista de que sexo não tem a ver com amor, que aquilo era só prazer, mas que amor mesmo era só por mim; que eu jamais entenderia isso, porque eu era mulher, e mulher não tem essa necessidade física, e continuava falando tudo aquilo que todos os homens falam para entupir nossos ouvidos...
Acordei num susto. Um aperto no peito... Olhei para o lado e lá estava ele dormindo... Senti raiva, nojo, tristeza... Todo o amor que eu tinha por aquele homem havia se transformado em decepção. Cheguei a conclusão de que se isso realmente acontecesse, eu deixaria de amá-lo. Não deixaria de amar o “meu Mateus”, mas, certamente, o “meu Mateus” não existiria, haveria sido fruto de uma construção sólida e madura. E, “aquele Mateus” que se descobria para mim, “aquele” desse pesadelo, eu não amaria por nada nesse mundo.
Tomei um banho bem quente ao som de “Pra que chorar, pra que sofrer se há sempre um novo sol em cada novo amanhecer...”. Precisava dessa injeção de ânimo para seguir meu dia. Afinal, além de um marido que eu voltaria a amar em alguns instantes (precisava só dar mais um tempinho para meu cérebro entender que aquilo havia sido um pesadelo), eu ainda tinha uma amiga, sofrendo no quarto ao lado por uma estória disfarçada de amor verdadeiro...

domingo, 12 de junho de 2011

Os "Nossos Dias dos Namorados"


Foi um orgasmo intenso seguido por uma explosão de relaxamento que despertou meu cérebro para a vontade de escrever. O jejum de longos vinte e cinco dias sem nada teclar – descartando míseros esboços que não me levaram a lugar nenhum – parecia chegar ao fim, depois de eu ser atropelada por uma enxurrada de frases que se aglomeravam em minha mente. Era hora de largar Mateus adormecido e nu, tomar um banho e escrever.
Ao abrir o computador me deparei com a seguinte informação: Domingo, 12 de junho de 2011, 0:23h. Era dia dos namorados e eu havia me esquecido completamente. Não só eu como meu marido parecia ter esquecido também. Por um momento, parei. Precisava tentar entender o que havia acontecido para que nós dois esquecêssemos dessa data. Mas, não tinha uma explicação...
Comecei a achar que os quase dez anos de relacionamento poderiam ter pesado para tamanho descaso. Ou talvez a rotina abarrotada de trabalho, mudanças, trabalho, problemas, trabalho, preocupações, trabalho e cobranças tivesse contribuído para isso. Talvez... Talvez mesmo, pudesse ser o cansaço, fruto de tudo isso que acabei de descrever.
Mas, algo dentro de mim estava tão bem resolvido, tão certo de uma relação saudável, madura, construída através de anos de tentativas e erros, e de uma vontade enorme de dar certo de ambas as partes, que qualquer tipo de preocupação referente a minha vida a dois se esvaíra como um simples pensamento inoportuno e inconveniente. Recordei-me da estória de Rosa...
A jovem moça havia comprado um lindo vestido para aquela noite. Havia se perfumado, se maquiado e se preparava para conhecer o rapaz com quem trocara meia dúzia de e-mails, após se cruzarem num site se relacionamentos. Solteira e pronta para investir num romance, ela passara o dia inteiro ansiosa por aquele encontro.
Romeu, o pretendente, havia avisado que estaria a sua espera no restaurante escolhido para um magnífico jantar a dois. Trajando “calça jeans e camisa social branca”, reservara uma mesa especial para a ocasião.
Parecia mentira que o momento desse encontro se aproximava. Afinal, haviam sido semanas de trocas de e-mails até que chegassem a um consenso. Imóvel diante da porta do restaurante, Rosa chegou a pensar se embarcava ou não naquela aventura. Ainda era tempo de desistir. Mas, não. Abriu a porta e seguiu confiante a procura daquele homem de “calça jeans e camisa social branca” que, certamente, aguardava por ela.
Seu coração parecia não caber dentro de seu peito, suas pernas começavam a tremer e o frio na barriga era inevitável. Lá estava ele:
-       Romeu?
-       Rosa?
Os dois riram...
-       Prazer.
-       Prazer.
-       Legal esse lugar... Não conhecia...
-       Pois é. Achei que você fosse gostar. Sempre quis trazer uma mulher aqui.
Silêncio. Ele seguiu...
-       Você é linda!
-       Obrigada.
-       A mais linda que eu já vi...
“Ele deve falar isso pra todas”, ela pensou.
-       Não pense que falo isso pra todas. Na verdade, jamais falei isso para outra mulher.
-       Você está me deixando sem graça...
-       Por quê? Por que eu estou dizendo a verdade?
-       Porque você está me deixando sem saber o que dizer.
-       Tudo bem... Vamos mudar de assunto então. Que tal você me dizer com o que você trabalha?
-       Não antes de “você” me dizer com o que você trabalha.
-       Sou artista plástico. Tenho um ateliê no Horto e outro em Milão. Costumo passar três meses por aqui, três meses por lá... Além de expor meus trabalhos ao redor do mundo.
-       Hum, interessante... Sempre gostei de homens sensíveis...
-       Sua vez...
-       Bom, eu trabalho na área de relações internacionais de uma empresa canadense que está ampliando seus horizontes aqui no Brasil. Sou chefe de um departamento com aproximadamente vinte funcionários e passo os 365 dias do ano fazendo o trajeto barra da tijuca – centro – barra da tijuca. Um verdadeiro inferno!
-       E o que levou uma mulher tão bem sucedida a procurar por um homem na internet?
-       O mesmo motivo que levou um homem tão bem sucedido a procurar uma mulher na internet.
-       Já sabe o que vai querer comer?
-       Já.
Depois de entradas, pratos principais, sobremesas, um papo interessantíssimo sobre o tamanho das orelhas dos elefantes-africanos e uma soma de quase duas horas de gargalhadas e descobertas de afinidades, eles decidiram pedir a conta – paga por ele, claro! – e partir:
-       Você veio de táxi? – ele perguntou.
-       Aham.
-       Te deixo em casa.
-       Ótimo.
No carro, Rosa não sabia muito o que fazer. Pelo visto, Romeu também não... Os quinze minutos entre o restaurante e a casa da moça foram embalados por um silêncio sepulcral. Silêncio esse que só foi quebrado depois de longos amassos e inúmeros sussurros e gemidos ao ouvido.
-       A gente vai ficar se agarrando aqui na porta da sua casa? Não acha melhor me convidar pra entrar?
-       Não, não posso te colocar aí dentro, nem muito menos transar com você no nosso primeiro encontro?
-       Por que não?
-       Porque se isso acontecer, a chance de você querer ter um relacionamento sério comigo vai ser praticamente nula.
-       E quem disse que em algum momento eu quis ter um relacionamento sério com você?
-       Não?
-       Não.
-       Mas, e todo aquele papo de que eu era linda, de que você me admirava, e blá, blá, blá, não trazia nenhuma perspectiva de futuro pra nossa relação?
-       Mas, que relação?
-       Essa, de agora.
-       Mas, essa, de agora, não é uma relação...
-       Não?
-       Não.
-       Então, significa que tudo isso pode acabar ainda hoje ou que, se continuar, vai ser sem cobranças, sem neuras, sem compromisso? Apenas diversão?
-       Certamente.
-       Era tudo que eu precisava ouvir...
Os dois adentraram o recinto, subiram para o quarto de Rosa, tiraram as roupas e transaram como seres ávidos por um mundo novo a descobrir.
Quando eu disse que algo dentro de mim se mostrava tão bem resolvido que a preocupação por não termos nos lembrado que aquele dia era o “Dia dos Namorados” se esvaíra rapidamente, foi porque todos os dias eram “Nossos Dias dos Namorados”.
Sim, sem nem nos darmos conta da véspera de uma data tão simbólica, naquela noite de 11 de junho de 2011 e em todos os dias e e-mails que antecederam o encontro, eu havia sido Rosa e ele havia sido Romeu.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Trabalhar é preciso!


Já não consigo pensar em nada. Minha mente, confusa com um turbilhão de informações, parou de funcionar. São oito horas da noite e meu dia deve ser encerrado o quanto antes a fim de evitar males futuros. O causador de tamanha catástrofe tem apenas um nome: trabalho.
           Acordei às seis e meia da manhã, tomei um banho, me arrumei e fui trabalhar. Essa rotina diária me entediaria tremendamente não fosse o ramo da minha profissão.
Fazer televisão é uma surpresa constante. É se ver obrigado a conviver com risos, choros, broncas e mágoas, um turbilhão de caras feias e um mundo de cobranças. É esquecer do marido, dos filhos, da família e viver num mundo paralelo. Um mundo onde as percepções são distorcidas, os valores distintos e os objetivos passageiros. É sofrer porque o microfone apareceu no quadro, o figurante não passou na hora certa e o ator não consegue dar o texto. O maior dos nossos problemas é não conseguir cumprir o plano de gravação e pendurar cenas e, acreditem, isso pode se tornar o pior dos mundos!  Cada pequeno equívoco é encarado numa proporção assustadora: ninguém pode errar! Parecemos neurologistas à beira de um caos cirúrgico!
Além disso, a carga horária é bem pesada: média de onze horas diárias, sendo que dessas onze, dez e meia são em pé, correndo e andando de um lado pro outro, subindo e descendo ladeira, administrando um rádio em cada ouvido, gritando, pedindo silêncio e falando “Ação!”.
É por isso tudo e pelo acúmulo do cansaço semanal, principalmente, depois de uma externa com dois caminhões, um trator, um cachorro, um mar de poeira e setenta figurantes, que me encontro exausta essa noite. Só consigo pensar em dormir. Aliás, só não estou dormindo ainda, pois espero Mateus chegar da academia e, como meus olhos insistem em fechar, resolvi escrever para tentar enganá-los. Ansiosa que estou, não me agüentei e mandei uma mensagem para o celular dele: “Wish you were here with me...”. Tomara que ele desista da academia e corra para meus braços, ou melhor, minha cama...
Mas, apesar de todo esse cansaço, uma sensação muito boa toma conta de mim: a sensação de dever cumprido. Um dever muito bem cumprido! Ela fica ainda mais forte quando lembro da conversa que tive com a Dona Nádia, no início do meu dia.
Eu havia acabado de chegar no set e como ainda era bem cedo, a equipe estava escassa. Subindo a ladeira da cidade cenográfica avistei essa senhora, sentadinha na mesma cadeira que costumo colocá-la em diversas cenas. A minha figurante mais especial abria um sorriso enorme ao me ver e, eu, encantada com tamanha beleza senil, corri para cumprimentá-la:
-       Bom dia, Dona Nádia? Tudo bem?
-       Tudo bem.
Sentei-me ao seu lado curiosa por descobrir quem, exatamente, era essa adorável criatura, presente em todas as minhas últimas gravações:
-       Chegou há muito?
-       Tem umas duas horas, mais ou menos.
-       Mas, por que tão cedo se o horário de chegada era agora?
-       Não gosto de me atrasar.
Silêncio. Começava o interrogatório:
-       Quantos anos a senhora tem?
-       94.
-       E costuma vir sozinha para aqui?
-       Sim.
-       Vem de ônibus?
-       Pego dois.
-       Mora aonde?
-       Guadalupe.
-       Nossa! Longe, né?
-       Não. Demoro umas duas horas pra chegar.
-       Mas, então, se a senhora chegou aqui às seis da manhã, significa que saiu de casa às quatro?
-       Isso.
-       E, vem sozinha, né?
-       Venho, já falei!
-       É, eu sei, mas é que, sei lá, né?
Mais silêncio... Sua voz era serena e triste...
-       Há quanto tempo a senhora é figurante?
-       Ih... Já nem sei... Desde a novela “A Viagem”.
-       E, por que resolveu ser figurante?
-       Ah, eu e meu marido já estávamos aposentados e vir pra cá virou um passatempo pra nós.
-       Que ótimo! Então, quer dizer que o seu marido também trabalha aqui!
-       É, trabalhava antes de ficar doente. Por isso, eu também parei de vir. Nos últimos cinco anos, fiquei cuidando exclusivamente dele. Infelizmente, ele partiu no mês passado e eu decidi voltar. Liguei pra todas as agências que eu já havia trabalhado antes, mas nenhuma me quis. Disseram que eu estava muito velha e que já não conseguia andar direito e que, por isso tudo, não dava mais. Eu não desisti e acabei conseguindo vir com a agência desse programa. É só uma vez por semana, mas tá bom. Melhor que ficar em casa.
-       E, se depender de mim, não vai mais embora.
Ela riu.
-        A senhora mora sozinha agora?
-       Não. Moro com Deus e com a minha gatinha.
-       Tem filhos?
-       Tenho. Quatro filhos, seis netos e dois bisnetos.
A essa altura do campeonato, eu já não tinha mais palavras. As lágrimas começavam a cair e eu não queria que ela percebesse. Fiquei encarando o horizonte numa tentativa de conter a emoção. Ela seguiu:
-       Eu estou preocupada, porque os outros figurantes estão falando que eu não posso ficar sentada o tempo todo, senão vão me mandar embora. Mas, eu posso andar. Eu sei que é devagar, mas já é alguma coisa. Você acha que podem não me chamar mais?
Ela realmente não sabia uma das minhas funções no trabalho...
-       Dona Nádia, quem decide isso sou eu. Quem escolhe cada rostinho presente nesse set sou eu e a senhora pode ter certeza que jamais ficará de fora. Andando ou não, seu lugar é aqui.
-       É mesmo?
Assenti. Ela chorou de alegria e eu finalizei:
-       Posso lhe dar um abraço?
-       Pode, minha filha! Muito obrigada!
-       Obrigada à senhora...
Foi o abraço mais longo que eu dei nos últimos tempos. E mais energizante também! A equipe começava a se colocar a postos e era hora de trabalhar!
Passei o dia todo com a emoção à flor da pele. Chorava por qualquer coisa. Caí em prantos numa cena de reconciliação entre pai e filho, chorei quando recebi um elogio do meu chefe, quando ouvi a voz de Maria ao telefone, quando observei a Dona Nadia almoçando ao meu lado, além de todos os outros momentos em que as lágrimas rolaram sem o meu consentimento.
Só mesmo o Seu Adail pra me fazer gargalhar num dia desses. E eu tenho que relatar esse momento a vocês:
Estávamos nos últimos ajustes de câmera antes de começarmos a rodar uma das cenas. Como de costume, fui passar o olho nos visores das câmeras para me certificar que os quadros estavam livres de qualquer objeto não desejado como, cabos de câmera e de refletores, lixo, pedaços de cenário e por aí vai.
O Seu Adail é um cabo man, muito gentil, humilde e educado, que trabalha na empresa há mais de trinta anos. Ao me avistar numa das lentes, falou:
-       Ô, Flora, esse cabo que ta no chão vaza pra essa câmera aí?
-       Não, Seu Adail. Fica tranqüilo que a mesa de sinuca está na frente.
-       Ah, mas, agora, minha TV é 3D e, no 3D, tudo aparece, até o que está escondido atrás das coisas, sabe como é? A sua TV é 3D?
-       Não.
-       Então, na sua, o cabo não vai aparecer.
Pois bem, segui o dia em paz, chorando ao pensar na Dona Nadia e rindo ao lembrar do Seu Adail.
Agora, exausta após um dia agitado e cheio de informações, me preparo pra dormir e renovar minhas energias. Mas, peraí, meu telefone está tocando: meu chefe!
-       Alô?
-       Oi Flora! Tudo bem?! Desculpa te ligar a essa hora, mas preciso de alguém pra me socorrer!
-       Oi, Fernando! Diga! Aconteceu alguma coisa?
-       Então, o Serra assistiu o programa que vai ao ar amanhã e pediu algumas modificações na edição.
-       Sei...
-       E, eu queria saber se você poderia me ajudar?
-       Claro. Mas, o que eu posso fazer pra te ajudar? Você quer que eu ligue pra algum editor e...
-       Não. Então... Não tem mais ninguém por lá...
-       Tá. Você quer que eu vá lá e faça essas mudanças, é isso?
-       Isso! Tem que reeditar e ressonorizar o programa hoje ainda. Temos que tê-lo pronto o mais rápido possível.
Foi nesse momento que Mateus abriu a porta do quarto com um sorriso de orelha a orelha e um ramalhete em suas mãos. Sim, depois de ler a minha mensagem, ele deixou de ir à academia para ficar comigo, e, eu, o deixaria aqui, sozinho, para cumprir meu dever...
Não tive muita coragem para encará-lo. A única coisa que pedi foi que compreendesse. Pedido assentido!
Meu corpo foi trabalhar depois de quatorze horas já trabalhando. Fiquei mais umas três por lá e quando voltei à cama, Mateus já dormia... Fiquei a observá-lo sob um feixe de luz refletido pelo carregador de bateria do celular. Dei-lhe uns beijos na nuca e deitei. Com os olhos arregalados, sem sono de tanto cansaço, lembrei da indagação vinda do homem que operou o equipamento da ilha de edição nessa noite:
-       Você está cansada porque acordou às seis e meia e está trabalhando há dezessete horas? Pior eu que acordei às cinco, fiz um turno de oito horas numa empresa e completo mais oito em outra. E não é só um dia não. É todo dia!
-       Mas, que horas o senhor dorme então?
-       Eu não durmo, minha querida!
É... Trabalhar é preciso!

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Aprendendo a viver...



É com um aperto no peito, a emoção à flor da pele e outros sentimentos que não consigo explicar que começo a escrever. Não fosse pelos meus últimos minutos, nenhuma dessas palavras se juntariam. Não fosse por aquela voz, também não. A conjunção desses fatores despertou algo escondido em mim, algo que já se mostrava tímido, mas que acabou por me consumir inteiramente: o pânico da morte de nossos amores.
           Maria, nos seus 75 anos, tem uma mãe. E pasmem: viva! Ela é a portuguesíssima Dona Álida, apelidada, carinhosamente pela minha inabilidade fonética infantil, de Lida. Tendo em vista que tanto meus avós paternos quanto maternos já não se encontram mais por aqui, essa senhora de quase 98 anos e uma vontade enorme de cumprir o centenário, é amada por mim como se fosse minha avó. Freqüentadora assídua da casa de Maria, desde os meus primeiros dias de vida, cresci junto com sua velhice e compartilhei com ela toda minha história.
Há uns dias atrás, Mateus e eu fomos visitá-la e, como de costume, sentamos na sala para batermos um papo. Ela, louca que é pelo meu marido – sempre que vamos lá, ela faz questão de dizer que se fosse mais jovem brigaria comigo por ele –, fechou seus olhos que já não podem mais ver, pois estão desgastados por tantos anos de vida, e começou a entoar:
-         Estou em Chelo. Minha casa é tão linda. Ah, olha o meu quarto, cheio de remendos de tecido! Estou andando, andando... Eu posso ver! Meu Deus, obrigada! Eu voltei a enxergar! Posso ver meu quintal, minhas roupas no varal... Ah, as crianças correm, corem muito! Brincam com as bonecas que as fiz. Olha a minha sala de costura! Está igualzinha como a deixei, há mais de quarenta anos atrás! Tenho muitas encomendas pra entregar essa semana. A Dona Pureza deixou dois vestidos pra fazer bainha e, além disso, também tenho que fazer os uniformes dos filhos do Antônio. Vocês me desculpem, meus queridos, mas tenho que me retirar.
-         Sim, claro. Vai lá! – falei – Aproveita e termina de fazer a bainha naquela minha calça, tá?!
Dei um beijo em sua testa e tive que sair. As lágrimas corriam pelos nossos rostos e não conseguíamos mais ficar ali. Tentando disfarçar a emoção, chamamos Maria para almoçar. Não tocamos no assunto. Guardamo-lo para nós.
Nessa noite, ao chegar lá em cima, perguntei ao Luca se não podíamos voltar àquela casa. Estava preocupada com a Lida e, também, com Maria, que já havia me relatado estar sem dormir, há dias, por causa das crises de sua mãe nas madrugadas. Ele topou!
Ao pousarmos naquele recinto, algo me chamou bastante atenção: um pequeno canal aberto conectava o peito da Lida com o céu. Assim mesmo. Exatamente como estou descrevendo. Não conseguia ver aonde ele ia dar, mas sua ligação era bem clara.
Deviam ser umas três da manhã e ela, como eu já esperava, estava acordada, de olhos fechados, falando sem parar. Maria, encontrava-se ao seu lado, de mão dadas, acarinhando-a e ouvindo-a.
Mais uma vez, a emoção veio forte. Chorei. Continuo chorando até agora. Luca interveio:
-         Ei, não adianta chorar! Você só atrapalha assim!
-         Eu sei. Mas, essa imagem é forte demais pra mim. Queria fazer alguma coisa, queria poder ajudar.
-         Ajudar? Ajudar a quê?
-         Sei lá. Ajudá-la a ficar bem.
-         Mas, é exatamente isso que está acontecendo. A diferença é que não é você quem está ajudando, mas, sim, outros amigos.
-          Você está querendo dizer que toda essa alucinação que ela está tendo é proposital?
-         Claro, Flora! Isso tudo é pra facilitar a passagem dela. Quanto menos noção da realidade ela tiver, mais fácil será o processo e menos doloroso também.
-         Mas, olhe pra Maria. Ela, certamente, está sofrendo com tudo isso.
-         Maria é um anjo que apenas cumpre sua missão. Isso só traz pra ela coisas melhores ainda, acredite.
-         Então, significa que a Lida está quase partindo?
-         Aham...
Desatei a chorar. Luca, me encarou nos olhos e lançou:
-         Vamos embora, agora! Você é muito imatura! Não é possível, Flora! Quantas vidas você vai ter que viver pra aprender a viver?!
Partimos sem meu aval, claro. Mas, como não tive escolha, segui.
           Os dias seguintes foram tensos. Qualquer telefonema me aterrorizava. Ficava imaginando a notícia de sua morte. Mas, para minha felicidade, todos sempre trouxeram notícias bem menos dolorosas.
           Por que é tão difícil aceitarmos a partida daqueles que amamos? Não somos capazes de nos desapegarmos mesmo quando a vida por aqui já não é das melhores há tempos. Queremos todos os nossos amados, exclusivamente, para nós. Essa é a verdade. O medo do sofrimento pela falta e da aceitação da saudade nos faz pessoas egoístas. Temos que trabalhar nossa coragem mesmo quando ela parece não existir. Pois é. Eu sei disso tudo. Já ouvi milhões de vezes, mas não dá. Ainda não estou preparada para perdas. Mesmo acreditando que sejam temporárias.
           Olho para as pessoas que amo e começo a imaginar minha vida sem elas. Fico aterrorizada. Começo a abraçá-las mais, a dizer repetidas vezes o quanto as amo, a buscar mais tempo para elas e jamais negar um pedido – vai que é o último! – . Acontece que, definitivamente, não é possível viver desta maneira neurótica. Prometi para mim mesmo que não sofreria antecipadamente a partida de ninguém. Apesar de continuar olhando para minhas adoráveis cachorrinhas sem conseguir conter as lágrimas. Mas, hoje haveria de ser diferente. Hoje era um novo dia e eu precisava me desprender desses sentimentos negativos antes de enlouquecer...
           Até que toca meu telefone. Olho no visor: Maria. Já era noite e eu dirigia a caminho da academia, aonde em alguns minutos me encontraria com Mateus para mais uma série de exercícios juntos:
-         Oi, minha linda! Tudo bem?
-         Oi, Flor. Tudo indo...
-         O que houve?
-         Não, nada demais... A minha mãe, você sabe...está cada dia pior e eu não sei mais o que fazer. Acredita que agora ela cismou que vive na nossa casa de Chelo?
Fingindo uma estranheza, continuei:
-         Ah, é? Que loucura...
-         Pois é. Agora mesmo, estava nos levando pra escola e falando com as pessoas na rua enquanto passava.
Desliguei o telefone na cara dela. Fingi que a ligação caiu... O nó subiu a garganta e meu orgulho me impediu de prosseguir com palavras. Respirei culpada pelo meu ato impensado, mas, para mim, necessário. Ela tornava a ligar. Eu tinha que atender. Havia de ser forte e me segurar:
-         Oi, Maria. Caiu...
-         É, percebi. Mas, é isso, Flor... Acho que a minha mãe está indo embora.
-         Não... Vai ver foi só uma pequena ausência.
-         Não, Flor. Você devia ver pra perceber como há vida no que ela fala. Ela realmente está em Portugal.
Conversamos mais um pouquinho, o quanto pudemos e nos despedimos. Já estava a poucos metros da academia e precisava desligar. Foi nesse instante que meu coração parou e, em seguida, disparou.
Os carros freavam e algumas pessoas começavam a se agrupar. Era claro que algum acidente acabara de acontecer. “Não, não podia ser o que eu estava pensando”. Mas, era justamente no local que Mateus atravessava todos o dias para ir à academia. E, exatamente, onde toda vez que ele estacionava, a voz soprava em meus ouvidos: “Fala pra ele não parar o carro do outro lado da rua. Essa travessia é muito perigosa”. E é mesmo. Isso tudo porque o estacionamento da academia é pago e o da rua não. Falei inúmeras vezes para ele não parar o carro lá, mas ele é teimoso. Nunca me obedeceu.
Coloquei a cabeça para o lado de fora da janela e pude ver o carro dele estacionado no lado oposto. “Teimoso demais!”, pensei. Em seguida, avistei o que jamais gostaria de ter visto: o corpo de um homem que repousava ensangüentado no asfalto. Num ato de desespero, peguei meu telefone e liguei para Mateus. Chamou, chamou, mas ele não atendeu. “Não era possível! Havíamos nos falado há poucos minutos e estava tudo bem”. Saltei do carro e, desesperadamente, corri até aquele corpo estendido no chão. Ao mesmo tempo que não queria acreditar, mesmo ainda de longe, buscava semelhanças com Mateus: os sapatos eram muito parecidos, a calça também... “Não!!!”, gritei. “Não pode ser!”. Corri mais e, ao chegar, afastei as pessoas que tentavam socorrê-lo. Foi quando pude ver. Não era ele.
Levantei-me, recuando, sem conseguir tirar os olhos daquele corpo inerte e sem vida. As pessoas fechavam o cerco novamente. Comecei a tremer e a chorar muito. Os últimos segundos haviam sido como um pesadelo, daqueles que a gente despenca do mais alto edifício.
Entrei em meu carro, bastante atordoada. Acabara de presenciar a agonia da perda. Acabara de assistir algo que havia falado repetidas vezes a Mateus. Parei no estacionamento da academia e desabei. O telefone tocou. Era ele:
-         Alô?
-         Oi, amor! Aonde você está? Já estou correndo na esteira!
Engoli o choro e falei:
-         Oi, meu lindo! Que bom que você já chegou! Estou subindo...
Peguei o elevador, entrei na sala, corri até ele e, mal pude acreditar quando o avistei, lindo e saudável de costas para mim:
-         Promete que nunca mais pára o carro do outro lado da rua?
-         Hum?!
-         Promete?
-         Por que você está falando isso?
-         Não interessa. Promete?
-         Tá. Prometo.
-         Então, pára a esteira e me dá um abraço bem forte!
-         Flora! Não, né?! No meio da academia?
-         Mateus, eu disse, pára a esteira agora!
Ele me abraçou meio a contragosto... Percebi que ficou olhando pros lados, envergonhado. Eu não. Mergulhei em seus braços por longos segundos, dei um beijo em sua boca e finalizei:
-         Vou pra casa.
-         Como assim? Você não veio malhar?
-         Não. Vim pedir pra você não parar nunca mais o carro do outro lado da rua.
Assim que cheguei em meu quarto, liguei o computador e pus-me a escrever. Agora, minutos depois de todo esse turbilhão, percebo que respiro um pouco mais aliviada. Mas, na dura certeza de que nessa vida ainda não aprendi a viver...

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Dilema de Abacaxi


É claro que ele falou mal de mim. É óbvio que sim. Ai, como eu sou idiota! Ele, certamente, aproveitou a primeira oportunidade para pegar o meu chefe e contar a versão dele da história. A versão mentirosa, inventada. E eu estou aqui, agora, desabafando com um computador, após ter ocupado, aproximadamente, quarenta minutos da noite do meu marido com essa aflição patética. E pensando se eu já deveria ter contado ou não ao meu chefe o que de fato aconteceu naquele telefonema. Será que ainda dá pra contar? É. Posso ligar pra ele amanhã bem cedo e tocar nesse assunto, assim como quem não quer nada. Talvez seja melhor falar ao vivo... Mas, só estarei com ele depois de amanhã e, até lá, já não sei mais se estarei achando uma boa idéia levantar essa questão. Ai, que dúvida...
Bom, enquanto não descubro o que fazer, resolvo escrever com a única esperança de encontrar uma solução no mínimo inteligente. Acabo de ser expulsa do meu quarto por Mateus, que ávido por assistir uma partida de futebol, achou melhor eu tentar descobrir isso sozinha mesmo.
Acho pertinente dividir com vocês o fato, mas escolho fazê-lo metaforicamente. Acreditem: a quantidade de palavras exclusivas do meio cinematográfico incluídas em um único parágrafo, faria com que vocês desistissem de prosseguir com a leitura.
Imaginem a seguinte situação: uma moça chega à um restaurante e é atendida pelo maître, que, sem muita paciência para recepcioná-la, a encaminha até a mesa mais próxima. Ela senta-se e fica aguardando até que um garçom dirija-se à ela para que possa fazer o pedido. Mas, nada. Ninguém aparece. Quinze minutos depois, ela resolve chamar o maître, que parado na porta do restaurante, não havia nem percebido tamanho descaso com a moça:
-       Senhor?!
-       Sim.
-       Pode vir até aqui, por favor?
-       Pois não?
-       Eu gostaria de fazer meu pedido, mas, até agora nenhum garçom me atendeu.
-       O nosso único garçom está de folga hoje, mas temos uma garçonete cobrindo a falta dele.
-       E o senhor pode, por gentileza, chamar essa garçonete para me atender?
-       Sim. Mas, o que a senhora deseja?
-       Fazer meu pedido.
-       Sim. Mas, o que a senhora quer pedir?
-       Um suco de abacaxi.
-       Como assim, um suco de abacaxi?
-       Um suco de abacaxi, ué! Como assim “como assim”?
-       É que eu não sei se tem suco de abacaxi.
-       E será que a garçonete não sabe se tem?
-       A garçonete não tem que saber uma coisa dessas.
-       Como ela não tem que saber? É claro que ela tem que saber uma coisa dessas.
-       Não estou entendendo aonde a senhora quer chegar.
-       Eu apenas estou querendo saber se tem suco de abacaxi!
-       Mas, eu já disse que não tenho como informar isso pra senhora!
-       O senhor não pode perguntar a alguém que saiba?
-       É impressão minha ou a senhora está “perseguindo” o garçom?
-       “Perseguindo” o garçom??? É óbvio que não. Ele nem está aqui hoje, não é?! Porque eu estaria o “perseguindo”?
-       Porque já faz um tempo que os clientes têm feito perguntas que o garçom não deve responder!
-       Como “se tem um suco de abacaxi”, por exemplo?
-       Exatamente. Não é obrigação dele saber isso!
-       Mas, eu não estou querendo que ele me responda isso. Eu só estou querendo saber se tem suco de abacaxi. E, essa informação, pode vir de qualquer pessoa. Como da garçonete, por exemplo.
-       Mas, eu não sei aonde está a garçonete.
-       Olha, senhor, eu não vou nem entrar nesse mérito, mas, estou cansada, não há outros restaurantes pela região e eu gostaria muito de tomar um suco de abacaxi. O senhor, mesmo não sendo a pessoa adequada, poderia descobrir isso pra mim?
Extremamente irritado com a pergunta da moça, o maître vira as costas e parte em direção à cozinha. Cinco minutos depois, ele retorna com a informação:
-       Não tem suco de abacaxi.
-       Mas, deveria ter. O nome do restaurante é “Abacaxi e Cia”!
-       É. Mas, não tem.
-       Ok, senhor. Muito obrigada.
No caminho até a saída, ela passa por uma mesa, onde, sentado, encontra-se um rapaz tomando um vistoso suco de abacaxi. Sem se agüentar, pergunta a ele:
-       Com licença, isso é suco de abacaxi?
-       É.
-       Daqui do restaurante?
Com um ar de questionamento, ele responde:
-       Sim?!?!?!
A moça, tentando se manter calma, dá meia volta e parte em direção ao maître:
-       O senhor não falou que não tinha suco de abacaxi?
-       Falei.
-       Mas, aquele rapaz está tomando um suco de abacaxi.
-       Ah, tá?
-       Sim, está! Então???
-       Então, vai ver que tem.
Ela respira fundo, muito fundo e decide sair do restaurante. Algo que deveria ter feito desde o início...
            Pois bem, eu sou a moça. E, ele, é o suco de abacaxi! Não, quem dera! Ele é o maldito maître, que a essa altura do campeonato, me detesta com todas as forças só porque eu queria um suco de abacaxi! E deve ter enchido a cabeça do meu chefe com um monte de bobagens e invenções ao meu respeito. Ele me detesta, com certeza. Mas, será que eu sou detestável? Ai, socorro, não posso ter pessoas que não gostem de mim! Não consigo conviver com isso! Eu sou uma pessoa tão legal... Talvez, eu não seja. Talvez, eu seja insuportável. Não, aí já é demais!
Começo, enlouquecidamente, a pensar em todas as pessoas que, provavelmente, não gostam de mim. Duas no trabalho (só duas no trabalho? Devem ter mais...), umas cinco na família (ai, essa doeu...), umas três da época do colégio e umas duas da época do balé. Contabilizando chego à doze pessoas. Coloco umas quatro para uma margem de erro. Dezesseis! No mínimo existem umas dezesseis pessoas que, certamente, não gostam de mim. Fora as que eu não sei que não gostam... Putz, será que estou um pouco acima da média?
Acho que terei que conviver com essa dúvida, a não ser que eu faça uma enquete no blog: “Quantas pessoas não gostam de você?”. Seria, no mínimo polêmico. Poderia até criar um grupo de auto-ajuda para pessoas que, como eu, não conseguem conviver com o fato de não serem queridas por, absolutamente, todos à sua volta.
Mas, pensando bem, eu não posso querer “ser querida” por todos se eu também não “quero” todos. Das dezesseis pessoas contabilizadas, aproximadamente, oito mantém a reciprocidade comigo. Mas, a minha listinha das pessoas que eu não quero bem também inclui nomes de pessoas que eu acredito que me queiram bem. Sendo assim, acabo igualando as duas listas e chegando à conclusão de que não há problema nenhum não ser querida por todos, visto que você também não quer bem a todos. Um pouco confuso? Acho que não, né? Dá pra entender.
Ufa! Respiro até mais aliviada depois dessa super enquete. Terapeuta pra quê? As minhas palavras respondem tudo. Hum, respondem mais ou menos tudo. Ainda continuo sem saber se ligo ou não ligo pro meu chefe...