sábado, 6 de agosto de 2011

Foi dia de Maria...


Comecei a semana com uma vontade enorme de falar sobre o meu encontro com Mateus nessa nossa vidinha por aqui. O amor com que ele me ninou, no último domingo, despertou em mim sensações incríveis e me instigou a contar um pouquinho da nossa história. Acontece que não consegui fazer isso durante a semana toda. O ritmo de trabalho foi intenso e aquela comichão em escrever foi desaparecendo aos pouquinhos.
           Eis que algo novo começou a me perseguir dia e noite. Foi tão forte que qualquer lembrança da minha vida amorosa foi se escondendo pelas coxias. Quem se preparava para me dar um bote e fazer um lindo espetáculo era apenas uma pessoa: o meu pai.
         A saudade de seus abraços e de suas palavras, de tocar piano para ele ouvir a noite toda, de dançar rosto no rosto ao som de Gershwin e Cole Porter e de mostrar minhas composições novas para ele emitir opinião me açoitaram de tal forma que meu pensamento só carregava sua imagem.
Depois que ele faleceu, há quase cinco anos atrás, só o reencontrei três vezes. E, em todas elas, muito rapidamente. Só deu tempo mesmo de dar meia dúzia de abraços e escutar algumas palavras: muitas de amor, poucas sobre notícias... E, foi no auge dessa saudade que me dei conta de uma coisa: era seu aniversário!
Fiquei toda arrepiada ao constatar tal data. Em sua homenagem, ouvi Sinatra o dia todo e coloquei uma orquídea, que acabara de desabrochar, em cima do meu piano. Conversei um pouquinho com ele em meus pensamentos, toquei a música que compus no dia de sua partida e percebi que a vontade de escrever sobre ele havia me deixado por completo. Na verdade, mesmo depois desse tempo todo, ainda não me sinto preparada para tocar nesse assunto. Quem sabe um dia...
Bom, se aquele era o dia do aniversário de meu pai, de acordo com as minhas contas, dali a dois seria a data do outro alguém mais importante da minha vida: seria o dia de Maria! E, a fim de sanar toda essa minha carência paterna, resolvi abençoar a maternidade que me foi enviada dos céus pensando em diversas formas de surpreendê-la em seu dia. Cheguei a uma decisão um tanto óbvia: faria uma festa surpresa! Era isso!      
Na véspera, fui ao supermercado e comprei balões, pratos e talheres descartáveis, refrigerantes, guardanapos, velas, chapeuzinhos de “Parabéns” e um bolo enorme de morango com calda de chocolate... Hum... Seria incrível!
Maria faz aula de hidroginástica e é lá aonde costumam acontecer os pequenos eventos que ela freqüenta ao longo do ano: festinha de dia das mães, páscoa, amigo oculto de natal, etc... Além disso, ela vive falando de mim para suas colegas de turma e sempre joga aquela indireta do tipo: “Um dia, você podia ir lá me buscar, né?! Falo tanto sobre você que elas são doidas para te conhecer...”. Com tantos pontos favoráveis, parecia o lugar perfeito para surpreendê-la naquela manhã.
Acordei bem cedo para organizar as coisas e chegar a tempo na academia. Faltava escrever um cartão, carregar o carro com o que havia passado a noite na geladeira e ir à floricultura para comprar um lindo buquê de cravos vermelhos que eu havia encomendado no dia anterior. Quinze minutos antes da aula começar, liguei para ela com o intuito de saber se ela realmente estaria presente. Resposta positiva! Era hora de seguir para realizar aquela missão: a missão de agradecer, de alguma maneira, por toda dedicação a mim nas últimas três décadas e em tantas outras vidas!
Ao chegar lá, descarreguei as coisas do carro, pedi ajuda ao porteiro e às recepcionistas e avisei a eles que chegara para fazer uma surpresa de aniversário para minha mãe. Todos embarcaram na idéia, colocaram chapeuzinhos e me ajudaram nos preparativos finais. Munidos do todo necessário, fomos em direção à piscina e, ao chegarmos no acesso mais próximo ao local, uma das recepcionistas foi falar com a professora. Explicou o que aconteceria em alguns instantes e voltou animada para me dizer que havia chegado a hora! Estava tudo pronto para a nossa entrada! Juntos, lá fomos nós:
-       Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades...
O coro dos funcionários seguiu firme e forte até a minha manifestação:
-       Parou, parou, parou! Aonde está Maria? – perguntei à professora.
-       Como assim? Está ali, ué!
-       Mas, aquela não é a Maria!
-       É claro que é!
-       Não a “minha” Maria!
-       Que Maria?
-       A Maria dos Santos!
-       Ah, não! Mas, a D.Maria dos Santos não apareceu por aqui hoje não.
“Meu Deus! Aonde ela estaria? O que havia acontecido para ela não ir à aula, mesmo tendo confirmado, minutos antes, que iria?”. Parecia mentira... O nó veio na garganta. Fiquei sem ação... Não sabia se eu podia chorar ali com todos me observando... Não, era melhor não. Eu haveria de me controlar. Notei que me olhavam com pena e compaixão, sabe?! Que situação mais constrangedora...
Sem falar nada, absolutamente nada, dei as costas e parti. A vontade de jogar aquele bolo no chão, de pisar naquelas flores e de arrancar os chapeuzinhos veio de uma maneira tão forte que o máximo que consegui fazer a fim de evitar tamanho ataque de loucura foi partir sem olhar pra trás.
Os funcionários me acompanharam e, num clima de enterro, recarregaram meu carro com todas aquelas porcarias. Àquela altura do campeonato, era tudo uma grande porcaria!
Peguei o telefone e liguei para a casa de Maria. Quando eu já estava quase desligando, depois de esperar por mais de um minuto alguém atender a ligação, a mãe dela, minha avó postiça de 98 anos, deu o ar da graça:
-       Alô?
-       Oi, Lida! É a Flora! Tudo bem?
-       Oi, minha querida! Tudo bem! Olha, a Maria deu uma saidinha. Disse que volta daqui a pouco.
-       Está bom, então. Vou ligar para o celular dela. Beijo.
Mas, como ligar para ela depois do que eu havia acabado de passar. Em minha mente só vinham frases do tipo: “Por que você mentiu?”, “Eu preparei uma linda festa surpresa e você estragou tudo!”. E, depois de cuspir todas essas palavras, eu choraria por não ter conseguido realizar o que queria...
Meu lado racional – que é muito bem treinado por sinal – não deixaria isso acontecer de forma nenhuma. Eu ligaria e falaria normalmente, afinal, o dia não era meu, era dela:
-       Oi, Flora!
-       Oi, Maria! Aonde você está?
-       No mercado.
-       Sei... Mas, você não falou que ia pra aula?
-       É, mas decidi não ir.
-       Entendi...
-       Está tudo bem, Flor? Você está indo pro trabalho?
-       É... Estou... Tá tudo bem sim.
-       Mais tarde você vem me ver, né?!
-       Vou, vou sim.
-       Então, tá! Te espero!
Desliguei sem entender muito o que eu estava sentindo naquele momento. Definitivamente, não conseguia decifrar. A única frase que soprava em meus ouvidos era: “Ainda dá tempo...”.
“Ainda dá tempo? Ainda dá tempo de quê?”. Naquela conjuntura, essa frase só faria um sentido: ainda daria tempo de correr atrás e realizar o que eu havia sonhado. Dentro de outras circunstâncias, claro! Mas, isso não importava mais. Peguei o caminho para a casa de Maria. Entreguei para os céus e decidi não planejar mais nada. Apenas, faria. Acreditei!
Maria mora numa vila muito charmosa, cercada por pessoas extremamente queridas. Grande parte delas acompanhou meu crescimento, afinal, foi lá que passei grande parte da minha vida, descendo de carrinho pela ladeira, tomando banho na mangueira e batendo de porta em porta para pedir doce.
Assim que estacionei, Seu Júlio, um simpático pedreiro nos seus 84 anos, me avistou e se apressou para cumprimentar:
-       Oi, minha querida! Veio fazer uma surpresa pra Maria? Ela espalhou pra rua inteira que você só viria mais tarde...
-      Vim, sim, Seu Júlio. Aliás, o senhor acaba de me dar uma ótima idéia  e, se puder me ajudar, a surpresa tem como ficar completa!
-       É pra já! Do que você precisa?
Algumas crianças da rua me ajudaram levando as coisas até a casa de Maria e com o aval da minha avó Lida, dei carta branca ao Seu Júlio para nos auxiliar nos preparativos. Tínhamos de ser rápidos, pois Maria, certamente, chegaria dentro de instantes.
Foi a partir desse momento que algo mágico aconteceu. Os moradores da vila começaram a chegar e chegar e chegar... Um, dois, três, quatro, cinco, dez, quinze, vinte... “Minha nossa! Aonde isso vai parar?”. E mais cinco, mais três, mais um, mais dois... Gente que eu nunca tinha visto na vida! Quando resolvi contar, já eram mais de trinta pessoas apertadas em alguns poucos metros quadrados. E, não acabou por aí, não! Elas pareciam brotar de todos os lugares... Eram crianças, jovens, adultos, senhores... Todos para dar os parabéns à Maria.
Meu coração saltitava, as lágrimas rolavam... Eu me sentia nas nuvens. O ambiente estava repleto de energias boas, de risadas, de abraços, palavras bonitas... Era como um sonho bom. Muito bom!
Foi nesse instante que Maria chegou! Cheia de sacolas nos braços, suas pernas bambearam de tanta emoção. Foi preciso segurá-la para não cair. Ela mergulhou num pranto profundo... Um pranto realizado! Jamais poderia imaginar que um simples gesto de amor proporcionaria esse esplendor de felicidade.
Ali aonde estava, parada à porta da casa, largou as sacolas e abriu os braços em minha direção. Corri para abraçá-la por longos segundos... Minutos, quiçá... Lembrei de meu pai... Chorei de alegria e de saudade... Ao pé de seu ouvido, ao som da melodia dos “Parabéns pra você!”, “É big, é big, é big...”, perguntei:
-       Afinal, o que você foi fazer de tão importante no mercado que fez até você faltar a aula?
-   Ora, Flor, fui comprar o suco que você gosta de beber, a batata portuguesa que você gosta de comer, as coisinhas pra fazer a sua torta de limão e umas flores para enfeitar a casa quando você chegasse...
Ainda abraçada, continuei:
-       O aniversário é seu, não meu!
-       Mas, o meu maior presente é você, esqueceu?
As palavras que não tenho agora são as mesmas que não tive naquele momento. Mas, também, pra que palavras quando as atitudes falam sozinhas?

            Essa foi a estória do dia que foi de Maria...

domingo, 3 de julho de 2011

Traição


Meu sono era leve. Há mais de uma hora, eu rolava na cama de um lado para o outro e nada... O dia havia sido bastante cansativo, mas, apesar disso, não conseguia me desprender daqui e entrar naquele estágio de sono profundo. Comecei a ficar apreensiva, afinal, já devia passar da uma da manhã e eu acordaria dali a seis horas.
Decidi não abrir os olhos, pois essa ação fatalmente me levaria até o relógio e eu não merecia tamanha angústia. “Dorme! Dorme, vai!”. Detesto insônia! É horrível! “Vai, você vai conseguir! Basta fechar os olhos e relaxar... Ai, que droga! Nada... Bom, que tal pensar em coisas boas?” Parecia uma ótima idéia... Comecei a me lembrar de todas as viagens que já fiz com Mateus, todos os lugares que passamos juntos, as praias, as cachoeiras, os museus, os castelos, o dia em que pegamos o carro e partimos pela Toscana, a noite em que assistimos um coral de crianças na Saint Chapelle, o dia em que chegamos a Londres e desbravamos suas ruas e seus jardins, a noite em que fomos a Filarmônica de Berlim e choramos de mãos dadas, tomados de uma avassaladora emoção, o dia em que andamos pela praça de Praga e um homem tocava um Xilofone que soltava fogo... a música era engraçada, alta, muito alta, adentrava meus ouvidos agressivamente, tão agressivamente que chegava a doer... “Ai, para de tocar! Para! Para!”. Abri os olhos. Meu telefone aceso acabara de me tirar daquele transe. Eram duas e meia da manhã e o nome “Roberta” reluzia na tela do meu celular:
-       Beta? Que houve?
-        Acabou, Flora. Acabou...
-       Calma, amiga. O que aconteceu?
-       O Marcelo... ele...
Putz, já podia imaginar... Foi por isso que me seguraram por aqui esta noite e me impediram de subir. A missão estava apenas por começar...
-       ...ele me traiu! Eu descobri tudo! Acabou!
O que dizer numa hora dessas além de “calma, calma, calma...”? A essa altura, Mateus, acordado, começava a me indagar: “o que houve? O que houve? O que houve?”. Com raiva de todos os homens da face da Terra, eu gritei: “Nada!”. E saí do quarto com Beta aos prantos em meus ouvidos:
-       Flora, foi horrível...
-       Mas, como você descobriu?
-       Ele esqueceu a caixa de e-mail aberta e foi tomar banho. Aí, eu resolvi fuxicar e achei várias mensagens de uma tal de Aline lá do trabalho dele, dizendo como as tardes eram maravilhosas com ele, como o sexo era bom, o quanto ela estava ficando apaixonada, mas sabia que não podia, afinal ele é casado... e por aí vai... Amiga, eu tive vontade de vomitar!
-       Calma, Beta...
-       E o pior de tudo é que já faz muito tempo... Desde antes de a gente se casar, acredita? Ele se atirou no chão pedindo perdão, dizendo o quanto vivia sofrendo com isso, mas que ia mudar, que ia acabar tudo com essa Aline, que me amava mais que tudo nesse mundo, que eu era a mulher da vida dele... Patético...
-       Calma, Beta...
-       Doeu, Flor. Está doendo muito... Parece que eu não vou agüentar... É uma dor muito esquisita, porque, às vezes, ela vem misturada de uma compaixão, sabe? Fico querendo matá-lo e, ao mesmo tempo, pegá-lo no colo e dizer: “fica tranqüilo, vai ficar tudo bem...”. É como se no fundo eu quisesse que  tudo fosse um pesadelo... Como se não pudesse ser real isso que está acontecendo... A gente estava tão bem... Tão feliz...
-       Calma, Beta...
-       Eu sempre achei que isso só acontecia com os outros e que o Marcelo era diferente. Eu coloquei ele pra fora! Acabou! Acabou...
-       Você quer que eu vá ficar com você?
-       Não. EU quero ir ficar com você...
A Beta chegou aqui em casa parecendo um zumbi: os olhos inchados de tanto chorar, a voz fraca, o corpo murcho... Arrumei a cama pra ela e fiquei abraçando-a por longos segundos antes de apagar a luz. Fiz carinho na sua cabeça, dei muitos beijos em suas bochechas e fiz questão de dizer o quanto eu a amava e o quanto ela era especial. Eram quatro e meia da manhã e eu só tinha poucas horas para me recuperar.
Embarquei num transe profundo... Em poucos segundos, já me encontrava com Luca:
-       E aí? Como é que ela ficou?
-       Mal, né... Está sofrendo muito, coitada... A gente não pode levá-la até o Danilo?
-       É exatamente por isso que eu estou aqui.
O Danilo é um negro alto, forte e lindo. É uma das pessoas mais iluminadas que eu já vi (e, olha que minha lista não é pequena...). Seu coração é tão puro e sua energia positiva é tão intensa que ele, atualmente, cuida do “Campanário dos Corações”. O nome é brega assim mesmo, mas o lugar é incrível. Não tem árvores nem flores, nem crianças correndo, nem anjinhos tocando harpa. Também não é uma sala branca e vazia. É muito mais do que isso. É mágico! Toda a sua superfície é composta de água. Sim, água! E nós podemos andar livremente sobre ela. Todo o seu entorno é cercado de cachoeiras e o ar que respiramos lá é cheio de fluidos que fazem tudo brilhar. Conseguiram imaginar? Pois bem, o Danilo fica no centro de tudo isso. É ele quem cuida de todos os corações machucados dessa região.
Quantas vezes já chorei em seus braços e ele lavou minha alma e meu peito. Não há sequer uma pessoa (do nosso metro quadrado, claro!), que já não tenha sido cuidada por ele. Era a vez da Beta.
Conversamos com o Danilo, que, extremamente ocupado por tantos corações partidos, abriu uma brecha em sua “agenda” e aceitou começar o tratamento com ela na próxima noite. Nós a buscaríamos e a levaríamos de volta ao lar nos próximos noventa dias. Depois, em noites alternadas por mais três meses e, dependendo do resultado, uma vez por semana por mais seis meses. A manutenção se daria com uma visita mensal no segundo ano de tratamento. Só a partir do terceiro ano, seu coração poderia voltar a ficar mais tranqüilo. A cicatriz ficaria para sempre...
-       É por isso que lá embaixo a gente diz que só o tempo pode curar...
-       Flora, pelo menos, cura. Imagina se não tivéssemos o Danilo...
Preferi não imaginar... O trato estava feito e era hora de voltar pra cama.
Comecei a sonhar aquele sonho que vem um pouco antes de a gente acordar. Aquele sonho que é fruto da nossa imaginação, dos nossos medos, das nossas inseguranças...
Mateus e eu chegávamos a um bar. O local estava repleto de pessoas falando alto, gesticulando, rindo... Tudo era meio marrom, meio esquisito... Sentamos numa mesa. Aos poucos, foram chegando outras mulheres que, sem pudor, sentaram-se conosco. Cumprimentaram meu marido como se já o conhecessem. “Estranho”, pensei. “De aonde Mateus as conhece?”. Elas eram vulgares, trajavam lingeries sujas, velhas e rasgadas, mas não perdiam a pose. Fumavam em suas piteiras e bebiam uísque nacional.
Meu marido começava a ficar sem graça com toda aquela situação. Até que olhei para seus olhos e pude ver tudo: ele as conhecia intimamente, eram todas mulheres do prostíbulo que ele freqüentava. “Não, não era possível... Ele sempre disse que me amava, que não me trairia jamais, que nosso amor era mais forte que qualquer coisa... Não!”.
Saí, desolada, pelas ruas sujas e vazias. Ele, gritando e me implorando perdão, veio atrás. E, atrás dele, todas as outras mulheres também vinham. “Sai!”, eu gritava. “Some da minha vida!”. Ele chorava, chorava, chorava... Dizia que aquilo era diferente, começava com aquele discurso machista de que sexo não tem a ver com amor, que aquilo era só prazer, mas que amor mesmo era só por mim; que eu jamais entenderia isso, porque eu era mulher, e mulher não tem essa necessidade física, e continuava falando tudo aquilo que todos os homens falam para entupir nossos ouvidos...
Acordei num susto. Um aperto no peito... Olhei para o lado e lá estava ele dormindo... Senti raiva, nojo, tristeza... Todo o amor que eu tinha por aquele homem havia se transformado em decepção. Cheguei a conclusão de que se isso realmente acontecesse, eu deixaria de amá-lo. Não deixaria de amar o “meu Mateus”, mas, certamente, o “meu Mateus” não existiria, haveria sido fruto de uma construção sólida e madura. E, “aquele Mateus” que se descobria para mim, “aquele” desse pesadelo, eu não amaria por nada nesse mundo.
Tomei um banho bem quente ao som de “Pra que chorar, pra que sofrer se há sempre um novo sol em cada novo amanhecer...”. Precisava dessa injeção de ânimo para seguir meu dia. Afinal, além de um marido que eu voltaria a amar em alguns instantes (precisava só dar mais um tempinho para meu cérebro entender que aquilo havia sido um pesadelo), eu ainda tinha uma amiga, sofrendo no quarto ao lado por uma estória disfarçada de amor verdadeiro...

domingo, 12 de junho de 2011

Os "Nossos Dias dos Namorados"


Foi um orgasmo intenso seguido por uma explosão de relaxamento que despertou meu cérebro para a vontade de escrever. O jejum de longos vinte e cinco dias sem nada teclar – descartando míseros esboços que não me levaram a lugar nenhum – parecia chegar ao fim, depois de eu ser atropelada por uma enxurrada de frases que se aglomeravam em minha mente. Era hora de largar Mateus adormecido e nu, tomar um banho e escrever.
Ao abrir o computador me deparei com a seguinte informação: Domingo, 12 de junho de 2011, 0:23h. Era dia dos namorados e eu havia me esquecido completamente. Não só eu como meu marido parecia ter esquecido também. Por um momento, parei. Precisava tentar entender o que havia acontecido para que nós dois esquecêssemos dessa data. Mas, não tinha uma explicação...
Comecei a achar que os quase dez anos de relacionamento poderiam ter pesado para tamanho descaso. Ou talvez a rotina abarrotada de trabalho, mudanças, trabalho, problemas, trabalho, preocupações, trabalho e cobranças tivesse contribuído para isso. Talvez... Talvez mesmo, pudesse ser o cansaço, fruto de tudo isso que acabei de descrever.
Mas, algo dentro de mim estava tão bem resolvido, tão certo de uma relação saudável, madura, construída através de anos de tentativas e erros, e de uma vontade enorme de dar certo de ambas as partes, que qualquer tipo de preocupação referente a minha vida a dois se esvaíra como um simples pensamento inoportuno e inconveniente. Recordei-me da estória de Rosa...
A jovem moça havia comprado um lindo vestido para aquela noite. Havia se perfumado, se maquiado e se preparava para conhecer o rapaz com quem trocara meia dúzia de e-mails, após se cruzarem num site se relacionamentos. Solteira e pronta para investir num romance, ela passara o dia inteiro ansiosa por aquele encontro.
Romeu, o pretendente, havia avisado que estaria a sua espera no restaurante escolhido para um magnífico jantar a dois. Trajando “calça jeans e camisa social branca”, reservara uma mesa especial para a ocasião.
Parecia mentira que o momento desse encontro se aproximava. Afinal, haviam sido semanas de trocas de e-mails até que chegassem a um consenso. Imóvel diante da porta do restaurante, Rosa chegou a pensar se embarcava ou não naquela aventura. Ainda era tempo de desistir. Mas, não. Abriu a porta e seguiu confiante a procura daquele homem de “calça jeans e camisa social branca” que, certamente, aguardava por ela.
Seu coração parecia não caber dentro de seu peito, suas pernas começavam a tremer e o frio na barriga era inevitável. Lá estava ele:
-       Romeu?
-       Rosa?
Os dois riram...
-       Prazer.
-       Prazer.
-       Legal esse lugar... Não conhecia...
-       Pois é. Achei que você fosse gostar. Sempre quis trazer uma mulher aqui.
Silêncio. Ele seguiu...
-       Você é linda!
-       Obrigada.
-       A mais linda que eu já vi...
“Ele deve falar isso pra todas”, ela pensou.
-       Não pense que falo isso pra todas. Na verdade, jamais falei isso para outra mulher.
-       Você está me deixando sem graça...
-       Por quê? Por que eu estou dizendo a verdade?
-       Porque você está me deixando sem saber o que dizer.
-       Tudo bem... Vamos mudar de assunto então. Que tal você me dizer com o que você trabalha?
-       Não antes de “você” me dizer com o que você trabalha.
-       Sou artista plástico. Tenho um ateliê no Horto e outro em Milão. Costumo passar três meses por aqui, três meses por lá... Além de expor meus trabalhos ao redor do mundo.
-       Hum, interessante... Sempre gostei de homens sensíveis...
-       Sua vez...
-       Bom, eu trabalho na área de relações internacionais de uma empresa canadense que está ampliando seus horizontes aqui no Brasil. Sou chefe de um departamento com aproximadamente vinte funcionários e passo os 365 dias do ano fazendo o trajeto barra da tijuca – centro – barra da tijuca. Um verdadeiro inferno!
-       E o que levou uma mulher tão bem sucedida a procurar por um homem na internet?
-       O mesmo motivo que levou um homem tão bem sucedido a procurar uma mulher na internet.
-       Já sabe o que vai querer comer?
-       Já.
Depois de entradas, pratos principais, sobremesas, um papo interessantíssimo sobre o tamanho das orelhas dos elefantes-africanos e uma soma de quase duas horas de gargalhadas e descobertas de afinidades, eles decidiram pedir a conta – paga por ele, claro! – e partir:
-       Você veio de táxi? – ele perguntou.
-       Aham.
-       Te deixo em casa.
-       Ótimo.
No carro, Rosa não sabia muito o que fazer. Pelo visto, Romeu também não... Os quinze minutos entre o restaurante e a casa da moça foram embalados por um silêncio sepulcral. Silêncio esse que só foi quebrado depois de longos amassos e inúmeros sussurros e gemidos ao ouvido.
-       A gente vai ficar se agarrando aqui na porta da sua casa? Não acha melhor me convidar pra entrar?
-       Não, não posso te colocar aí dentro, nem muito menos transar com você no nosso primeiro encontro?
-       Por que não?
-       Porque se isso acontecer, a chance de você querer ter um relacionamento sério comigo vai ser praticamente nula.
-       E quem disse que em algum momento eu quis ter um relacionamento sério com você?
-       Não?
-       Não.
-       Mas, e todo aquele papo de que eu era linda, de que você me admirava, e blá, blá, blá, não trazia nenhuma perspectiva de futuro pra nossa relação?
-       Mas, que relação?
-       Essa, de agora.
-       Mas, essa, de agora, não é uma relação...
-       Não?
-       Não.
-       Então, significa que tudo isso pode acabar ainda hoje ou que, se continuar, vai ser sem cobranças, sem neuras, sem compromisso? Apenas diversão?
-       Certamente.
-       Era tudo que eu precisava ouvir...
Os dois adentraram o recinto, subiram para o quarto de Rosa, tiraram as roupas e transaram como seres ávidos por um mundo novo a descobrir.
Quando eu disse que algo dentro de mim se mostrava tão bem resolvido que a preocupação por não termos nos lembrado que aquele dia era o “Dia dos Namorados” se esvaíra rapidamente, foi porque todos os dias eram “Nossos Dias dos Namorados”.
Sim, sem nem nos darmos conta da véspera de uma data tão simbólica, naquela noite de 11 de junho de 2011 e em todos os dias e e-mails que antecederam o encontro, eu havia sido Rosa e ele havia sido Romeu.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Trabalhar é preciso!


Já não consigo pensar em nada. Minha mente, confusa com um turbilhão de informações, parou de funcionar. São oito horas da noite e meu dia deve ser encerrado o quanto antes a fim de evitar males futuros. O causador de tamanha catástrofe tem apenas um nome: trabalho.
           Acordei às seis e meia da manhã, tomei um banho, me arrumei e fui trabalhar. Essa rotina diária me entediaria tremendamente não fosse o ramo da minha profissão.
Fazer televisão é uma surpresa constante. É se ver obrigado a conviver com risos, choros, broncas e mágoas, um turbilhão de caras feias e um mundo de cobranças. É esquecer do marido, dos filhos, da família e viver num mundo paralelo. Um mundo onde as percepções são distorcidas, os valores distintos e os objetivos passageiros. É sofrer porque o microfone apareceu no quadro, o figurante não passou na hora certa e o ator não consegue dar o texto. O maior dos nossos problemas é não conseguir cumprir o plano de gravação e pendurar cenas e, acreditem, isso pode se tornar o pior dos mundos!  Cada pequeno equívoco é encarado numa proporção assustadora: ninguém pode errar! Parecemos neurologistas à beira de um caos cirúrgico!
Além disso, a carga horária é bem pesada: média de onze horas diárias, sendo que dessas onze, dez e meia são em pé, correndo e andando de um lado pro outro, subindo e descendo ladeira, administrando um rádio em cada ouvido, gritando, pedindo silêncio e falando “Ação!”.
É por isso tudo e pelo acúmulo do cansaço semanal, principalmente, depois de uma externa com dois caminhões, um trator, um cachorro, um mar de poeira e setenta figurantes, que me encontro exausta essa noite. Só consigo pensar em dormir. Aliás, só não estou dormindo ainda, pois espero Mateus chegar da academia e, como meus olhos insistem em fechar, resolvi escrever para tentar enganá-los. Ansiosa que estou, não me agüentei e mandei uma mensagem para o celular dele: “Wish you were here with me...”. Tomara que ele desista da academia e corra para meus braços, ou melhor, minha cama...
Mas, apesar de todo esse cansaço, uma sensação muito boa toma conta de mim: a sensação de dever cumprido. Um dever muito bem cumprido! Ela fica ainda mais forte quando lembro da conversa que tive com a Dona Nádia, no início do meu dia.
Eu havia acabado de chegar no set e como ainda era bem cedo, a equipe estava escassa. Subindo a ladeira da cidade cenográfica avistei essa senhora, sentadinha na mesma cadeira que costumo colocá-la em diversas cenas. A minha figurante mais especial abria um sorriso enorme ao me ver e, eu, encantada com tamanha beleza senil, corri para cumprimentá-la:
-       Bom dia, Dona Nádia? Tudo bem?
-       Tudo bem.
Sentei-me ao seu lado curiosa por descobrir quem, exatamente, era essa adorável criatura, presente em todas as minhas últimas gravações:
-       Chegou há muito?
-       Tem umas duas horas, mais ou menos.
-       Mas, por que tão cedo se o horário de chegada era agora?
-       Não gosto de me atrasar.
Silêncio. Começava o interrogatório:
-       Quantos anos a senhora tem?
-       94.
-       E costuma vir sozinha para aqui?
-       Sim.
-       Vem de ônibus?
-       Pego dois.
-       Mora aonde?
-       Guadalupe.
-       Nossa! Longe, né?
-       Não. Demoro umas duas horas pra chegar.
-       Mas, então, se a senhora chegou aqui às seis da manhã, significa que saiu de casa às quatro?
-       Isso.
-       E, vem sozinha, né?
-       Venho, já falei!
-       É, eu sei, mas é que, sei lá, né?
Mais silêncio... Sua voz era serena e triste...
-       Há quanto tempo a senhora é figurante?
-       Ih... Já nem sei... Desde a novela “A Viagem”.
-       E, por que resolveu ser figurante?
-       Ah, eu e meu marido já estávamos aposentados e vir pra cá virou um passatempo pra nós.
-       Que ótimo! Então, quer dizer que o seu marido também trabalha aqui!
-       É, trabalhava antes de ficar doente. Por isso, eu também parei de vir. Nos últimos cinco anos, fiquei cuidando exclusivamente dele. Infelizmente, ele partiu no mês passado e eu decidi voltar. Liguei pra todas as agências que eu já havia trabalhado antes, mas nenhuma me quis. Disseram que eu estava muito velha e que já não conseguia andar direito e que, por isso tudo, não dava mais. Eu não desisti e acabei conseguindo vir com a agência desse programa. É só uma vez por semana, mas tá bom. Melhor que ficar em casa.
-       E, se depender de mim, não vai mais embora.
Ela riu.
-        A senhora mora sozinha agora?
-       Não. Moro com Deus e com a minha gatinha.
-       Tem filhos?
-       Tenho. Quatro filhos, seis netos e dois bisnetos.
A essa altura do campeonato, eu já não tinha mais palavras. As lágrimas começavam a cair e eu não queria que ela percebesse. Fiquei encarando o horizonte numa tentativa de conter a emoção. Ela seguiu:
-       Eu estou preocupada, porque os outros figurantes estão falando que eu não posso ficar sentada o tempo todo, senão vão me mandar embora. Mas, eu posso andar. Eu sei que é devagar, mas já é alguma coisa. Você acha que podem não me chamar mais?
Ela realmente não sabia uma das minhas funções no trabalho...
-       Dona Nádia, quem decide isso sou eu. Quem escolhe cada rostinho presente nesse set sou eu e a senhora pode ter certeza que jamais ficará de fora. Andando ou não, seu lugar é aqui.
-       É mesmo?
Assenti. Ela chorou de alegria e eu finalizei:
-       Posso lhe dar um abraço?
-       Pode, minha filha! Muito obrigada!
-       Obrigada à senhora...
Foi o abraço mais longo que eu dei nos últimos tempos. E mais energizante também! A equipe começava a se colocar a postos e era hora de trabalhar!
Passei o dia todo com a emoção à flor da pele. Chorava por qualquer coisa. Caí em prantos numa cena de reconciliação entre pai e filho, chorei quando recebi um elogio do meu chefe, quando ouvi a voz de Maria ao telefone, quando observei a Dona Nadia almoçando ao meu lado, além de todos os outros momentos em que as lágrimas rolaram sem o meu consentimento.
Só mesmo o Seu Adail pra me fazer gargalhar num dia desses. E eu tenho que relatar esse momento a vocês:
Estávamos nos últimos ajustes de câmera antes de começarmos a rodar uma das cenas. Como de costume, fui passar o olho nos visores das câmeras para me certificar que os quadros estavam livres de qualquer objeto não desejado como, cabos de câmera e de refletores, lixo, pedaços de cenário e por aí vai.
O Seu Adail é um cabo man, muito gentil, humilde e educado, que trabalha na empresa há mais de trinta anos. Ao me avistar numa das lentes, falou:
-       Ô, Flora, esse cabo que ta no chão vaza pra essa câmera aí?
-       Não, Seu Adail. Fica tranqüilo que a mesa de sinuca está na frente.
-       Ah, mas, agora, minha TV é 3D e, no 3D, tudo aparece, até o que está escondido atrás das coisas, sabe como é? A sua TV é 3D?
-       Não.
-       Então, na sua, o cabo não vai aparecer.
Pois bem, segui o dia em paz, chorando ao pensar na Dona Nadia e rindo ao lembrar do Seu Adail.
Agora, exausta após um dia agitado e cheio de informações, me preparo pra dormir e renovar minhas energias. Mas, peraí, meu telefone está tocando: meu chefe!
-       Alô?
-       Oi Flora! Tudo bem?! Desculpa te ligar a essa hora, mas preciso de alguém pra me socorrer!
-       Oi, Fernando! Diga! Aconteceu alguma coisa?
-       Então, o Serra assistiu o programa que vai ao ar amanhã e pediu algumas modificações na edição.
-       Sei...
-       E, eu queria saber se você poderia me ajudar?
-       Claro. Mas, o que eu posso fazer pra te ajudar? Você quer que eu ligue pra algum editor e...
-       Não. Então... Não tem mais ninguém por lá...
-       Tá. Você quer que eu vá lá e faça essas mudanças, é isso?
-       Isso! Tem que reeditar e ressonorizar o programa hoje ainda. Temos que tê-lo pronto o mais rápido possível.
Foi nesse momento que Mateus abriu a porta do quarto com um sorriso de orelha a orelha e um ramalhete em suas mãos. Sim, depois de ler a minha mensagem, ele deixou de ir à academia para ficar comigo, e, eu, o deixaria aqui, sozinho, para cumprir meu dever...
Não tive muita coragem para encará-lo. A única coisa que pedi foi que compreendesse. Pedido assentido!
Meu corpo foi trabalhar depois de quatorze horas já trabalhando. Fiquei mais umas três por lá e quando voltei à cama, Mateus já dormia... Fiquei a observá-lo sob um feixe de luz refletido pelo carregador de bateria do celular. Dei-lhe uns beijos na nuca e deitei. Com os olhos arregalados, sem sono de tanto cansaço, lembrei da indagação vinda do homem que operou o equipamento da ilha de edição nessa noite:
-       Você está cansada porque acordou às seis e meia e está trabalhando há dezessete horas? Pior eu que acordei às cinco, fiz um turno de oito horas numa empresa e completo mais oito em outra. E não é só um dia não. É todo dia!
-       Mas, que horas o senhor dorme então?
-       Eu não durmo, minha querida!
É... Trabalhar é preciso!

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Aprendendo a viver...



É com um aperto no peito, a emoção à flor da pele e outros sentimentos que não consigo explicar que começo a escrever. Não fosse pelos meus últimos minutos, nenhuma dessas palavras se juntariam. Não fosse por aquela voz, também não. A conjunção desses fatores despertou algo escondido em mim, algo que já se mostrava tímido, mas que acabou por me consumir inteiramente: o pânico da morte de nossos amores.
           Maria, nos seus 75 anos, tem uma mãe. E pasmem: viva! Ela é a portuguesíssima Dona Álida, apelidada, carinhosamente pela minha inabilidade fonética infantil, de Lida. Tendo em vista que tanto meus avós paternos quanto maternos já não se encontram mais por aqui, essa senhora de quase 98 anos e uma vontade enorme de cumprir o centenário, é amada por mim como se fosse minha avó. Freqüentadora assídua da casa de Maria, desde os meus primeiros dias de vida, cresci junto com sua velhice e compartilhei com ela toda minha história.
Há uns dias atrás, Mateus e eu fomos visitá-la e, como de costume, sentamos na sala para batermos um papo. Ela, louca que é pelo meu marido – sempre que vamos lá, ela faz questão de dizer que se fosse mais jovem brigaria comigo por ele –, fechou seus olhos que já não podem mais ver, pois estão desgastados por tantos anos de vida, e começou a entoar:
-         Estou em Chelo. Minha casa é tão linda. Ah, olha o meu quarto, cheio de remendos de tecido! Estou andando, andando... Eu posso ver! Meu Deus, obrigada! Eu voltei a enxergar! Posso ver meu quintal, minhas roupas no varal... Ah, as crianças correm, corem muito! Brincam com as bonecas que as fiz. Olha a minha sala de costura! Está igualzinha como a deixei, há mais de quarenta anos atrás! Tenho muitas encomendas pra entregar essa semana. A Dona Pureza deixou dois vestidos pra fazer bainha e, além disso, também tenho que fazer os uniformes dos filhos do Antônio. Vocês me desculpem, meus queridos, mas tenho que me retirar.
-         Sim, claro. Vai lá! – falei – Aproveita e termina de fazer a bainha naquela minha calça, tá?!
Dei um beijo em sua testa e tive que sair. As lágrimas corriam pelos nossos rostos e não conseguíamos mais ficar ali. Tentando disfarçar a emoção, chamamos Maria para almoçar. Não tocamos no assunto. Guardamo-lo para nós.
Nessa noite, ao chegar lá em cima, perguntei ao Luca se não podíamos voltar àquela casa. Estava preocupada com a Lida e, também, com Maria, que já havia me relatado estar sem dormir, há dias, por causa das crises de sua mãe nas madrugadas. Ele topou!
Ao pousarmos naquele recinto, algo me chamou bastante atenção: um pequeno canal aberto conectava o peito da Lida com o céu. Assim mesmo. Exatamente como estou descrevendo. Não conseguia ver aonde ele ia dar, mas sua ligação era bem clara.
Deviam ser umas três da manhã e ela, como eu já esperava, estava acordada, de olhos fechados, falando sem parar. Maria, encontrava-se ao seu lado, de mão dadas, acarinhando-a e ouvindo-a.
Mais uma vez, a emoção veio forte. Chorei. Continuo chorando até agora. Luca interveio:
-         Ei, não adianta chorar! Você só atrapalha assim!
-         Eu sei. Mas, essa imagem é forte demais pra mim. Queria fazer alguma coisa, queria poder ajudar.
-         Ajudar? Ajudar a quê?
-         Sei lá. Ajudá-la a ficar bem.
-         Mas, é exatamente isso que está acontecendo. A diferença é que não é você quem está ajudando, mas, sim, outros amigos.
-          Você está querendo dizer que toda essa alucinação que ela está tendo é proposital?
-         Claro, Flora! Isso tudo é pra facilitar a passagem dela. Quanto menos noção da realidade ela tiver, mais fácil será o processo e menos doloroso também.
-         Mas, olhe pra Maria. Ela, certamente, está sofrendo com tudo isso.
-         Maria é um anjo que apenas cumpre sua missão. Isso só traz pra ela coisas melhores ainda, acredite.
-         Então, significa que a Lida está quase partindo?
-         Aham...
Desatei a chorar. Luca, me encarou nos olhos e lançou:
-         Vamos embora, agora! Você é muito imatura! Não é possível, Flora! Quantas vidas você vai ter que viver pra aprender a viver?!
Partimos sem meu aval, claro. Mas, como não tive escolha, segui.
           Os dias seguintes foram tensos. Qualquer telefonema me aterrorizava. Ficava imaginando a notícia de sua morte. Mas, para minha felicidade, todos sempre trouxeram notícias bem menos dolorosas.
           Por que é tão difícil aceitarmos a partida daqueles que amamos? Não somos capazes de nos desapegarmos mesmo quando a vida por aqui já não é das melhores há tempos. Queremos todos os nossos amados, exclusivamente, para nós. Essa é a verdade. O medo do sofrimento pela falta e da aceitação da saudade nos faz pessoas egoístas. Temos que trabalhar nossa coragem mesmo quando ela parece não existir. Pois é. Eu sei disso tudo. Já ouvi milhões de vezes, mas não dá. Ainda não estou preparada para perdas. Mesmo acreditando que sejam temporárias.
           Olho para as pessoas que amo e começo a imaginar minha vida sem elas. Fico aterrorizada. Começo a abraçá-las mais, a dizer repetidas vezes o quanto as amo, a buscar mais tempo para elas e jamais negar um pedido – vai que é o último! – . Acontece que, definitivamente, não é possível viver desta maneira neurótica. Prometi para mim mesmo que não sofreria antecipadamente a partida de ninguém. Apesar de continuar olhando para minhas adoráveis cachorrinhas sem conseguir conter as lágrimas. Mas, hoje haveria de ser diferente. Hoje era um novo dia e eu precisava me desprender desses sentimentos negativos antes de enlouquecer...
           Até que toca meu telefone. Olho no visor: Maria. Já era noite e eu dirigia a caminho da academia, aonde em alguns minutos me encontraria com Mateus para mais uma série de exercícios juntos:
-         Oi, minha linda! Tudo bem?
-         Oi, Flor. Tudo indo...
-         O que houve?
-         Não, nada demais... A minha mãe, você sabe...está cada dia pior e eu não sei mais o que fazer. Acredita que agora ela cismou que vive na nossa casa de Chelo?
Fingindo uma estranheza, continuei:
-         Ah, é? Que loucura...
-         Pois é. Agora mesmo, estava nos levando pra escola e falando com as pessoas na rua enquanto passava.
Desliguei o telefone na cara dela. Fingi que a ligação caiu... O nó subiu a garganta e meu orgulho me impediu de prosseguir com palavras. Respirei culpada pelo meu ato impensado, mas, para mim, necessário. Ela tornava a ligar. Eu tinha que atender. Havia de ser forte e me segurar:
-         Oi, Maria. Caiu...
-         É, percebi. Mas, é isso, Flor... Acho que a minha mãe está indo embora.
-         Não... Vai ver foi só uma pequena ausência.
-         Não, Flor. Você devia ver pra perceber como há vida no que ela fala. Ela realmente está em Portugal.
Conversamos mais um pouquinho, o quanto pudemos e nos despedimos. Já estava a poucos metros da academia e precisava desligar. Foi nesse instante que meu coração parou e, em seguida, disparou.
Os carros freavam e algumas pessoas começavam a se agrupar. Era claro que algum acidente acabara de acontecer. “Não, não podia ser o que eu estava pensando”. Mas, era justamente no local que Mateus atravessava todos o dias para ir à academia. E, exatamente, onde toda vez que ele estacionava, a voz soprava em meus ouvidos: “Fala pra ele não parar o carro do outro lado da rua. Essa travessia é muito perigosa”. E é mesmo. Isso tudo porque o estacionamento da academia é pago e o da rua não. Falei inúmeras vezes para ele não parar o carro lá, mas ele é teimoso. Nunca me obedeceu.
Coloquei a cabeça para o lado de fora da janela e pude ver o carro dele estacionado no lado oposto. “Teimoso demais!”, pensei. Em seguida, avistei o que jamais gostaria de ter visto: o corpo de um homem que repousava ensangüentado no asfalto. Num ato de desespero, peguei meu telefone e liguei para Mateus. Chamou, chamou, mas ele não atendeu. “Não era possível! Havíamos nos falado há poucos minutos e estava tudo bem”. Saltei do carro e, desesperadamente, corri até aquele corpo estendido no chão. Ao mesmo tempo que não queria acreditar, mesmo ainda de longe, buscava semelhanças com Mateus: os sapatos eram muito parecidos, a calça também... “Não!!!”, gritei. “Não pode ser!”. Corri mais e, ao chegar, afastei as pessoas que tentavam socorrê-lo. Foi quando pude ver. Não era ele.
Levantei-me, recuando, sem conseguir tirar os olhos daquele corpo inerte e sem vida. As pessoas fechavam o cerco novamente. Comecei a tremer e a chorar muito. Os últimos segundos haviam sido como um pesadelo, daqueles que a gente despenca do mais alto edifício.
Entrei em meu carro, bastante atordoada. Acabara de presenciar a agonia da perda. Acabara de assistir algo que havia falado repetidas vezes a Mateus. Parei no estacionamento da academia e desabei. O telefone tocou. Era ele:
-         Alô?
-         Oi, amor! Aonde você está? Já estou correndo na esteira!
Engoli o choro e falei:
-         Oi, meu lindo! Que bom que você já chegou! Estou subindo...
Peguei o elevador, entrei na sala, corri até ele e, mal pude acreditar quando o avistei, lindo e saudável de costas para mim:
-         Promete que nunca mais pára o carro do outro lado da rua?
-         Hum?!
-         Promete?
-         Por que você está falando isso?
-         Não interessa. Promete?
-         Tá. Prometo.
-         Então, pára a esteira e me dá um abraço bem forte!
-         Flora! Não, né?! No meio da academia?
-         Mateus, eu disse, pára a esteira agora!
Ele me abraçou meio a contragosto... Percebi que ficou olhando pros lados, envergonhado. Eu não. Mergulhei em seus braços por longos segundos, dei um beijo em sua boca e finalizei:
-         Vou pra casa.
-         Como assim? Você não veio malhar?
-         Não. Vim pedir pra você não parar nunca mais o carro do outro lado da rua.
Assim que cheguei em meu quarto, liguei o computador e pus-me a escrever. Agora, minutos depois de todo esse turbilhão, percebo que respiro um pouco mais aliviada. Mas, na dura certeza de que nessa vida ainda não aprendi a viver...